
Como ecofeminista, gosto de pensar a justiça como um quilt: uma colcha de retalhos na qual as dimensões social, ambiental e interespécies se entrelaçam de forma inseparável (Rosendo, 2019). Sob esta ótica, a interseccionalidade nos ensina que a liberdade é indivisível (Collins, 2017) e que qualquer forma de opressão — seja ela o machismo, o especismo ou o racismo — partilha da mesma lógica de dominação que subalterniza corpos e territórios em nome de um projeto de poder excludente. No Brasil, o acidente radiológico de Goiânia em 1987 escancara essa lógica, revelando um caso emblemático de racismo ambiental ao evidenciar como o ônus do risco tecnológico recai desproporcionalmente sobre populações marginalizadas (Rosendo, 2019; Bullard, 1993). O brilho azul do Césio-137, que fascinou catadores em busca de sustento em uma clínica privada abandonada, era o subproduto de um descaso institucional que tratava certos corpos como descartáveis. A cápsula radioativa foi abandonada em ruínas por um instituto privado, o que demonstra que, para a elite econômica, a gestão de riscos fatais pode ser tratada como uma externalidade aceitável, desde que o impacto recaia sobre os já marginalizados. O racismo ambiental se manifesta aqui na negligência deliberada e na falta de fiscalização governamental que permitiram que materiais letais estivessem ao alcance de uma população empobrecida e desinformada (Bullard, 1993; Mapa de Conflitos, 2019). Uma análise ecofeminista interseccional nos impele a olhar para a singularidade e o impacto sobre a vulnerabilidade das vítimas. Leide das Neves, uma criança de seis anos, tornou-se o símbolo da tragédia ao ingerir o pó radioativo durante o jantar. Sua morte é resultado de um descuido, reflexo de uma desigualdade estrutural que torna esses episódios mais frequentes entre as pessoas empobrecidas (Rosendo; Oliveira, 2020). Quando Leide foi enterrada em um caixão de chumbo, sob uma chuva de pedras, diante de uma população aterrorizada, vimos o ápice da estigmatização da pobreza, do racismo e da contaminação. Em contrapartida, Maria Gabriela, que desconfiou da substância e levou a cápsula às autoridades, demonstrou uma ética do cuidado e uma percepção de risco que as instituições oficiais, alienadas pela própria tecnocracia, demoraram a validar (Dossiê Reparação, 2026). O acidente revela o que Robert Bullard — uma das primeiras vozes da justiça ambiental — identificou como o peso desproporcional do ônus: os riscos ambientais e de saúde não são distribuídos aleatoriamente entre a população, mas esse peso recai mais sobre as comunidades racializadas. No caso brasileiro, enquanto as classes abastadas usufruem dos benefícios da tecnologia radioterápica, o ônus do lixo atômico e da contaminação recai sobre catadores, trabalhadores de ferro-velho e os vizinhos da periferia (Bullard, 1993; Mapa de Conflitos, 2019). Mesmo décadas depois do caso emblemático, a luta da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio) por medicamentos e pensões dignas evidencia que a reparação é negada àqueles que o Estado prefere esquecer (Mapa de Conflitos, 2019; Dossiê Reparação, 2026). O lixo atômico, acondicionado em contêineres que permanecerão perigosos por 180 anos em Abadia de Goiás, é uma cicatriz física na terra e uma promessa de insegurança para as futuras gerações. Goiânia é o reflexo de um racismo ambiental radioativo. Assim como a radiação do Césio-137 é invisível aos olhos, mas letal em seus efeitos, o racismo estrutural opera silenciosamente nas instituições, contaminando o tecido social e a saúde de corpos negros muito antes de suas feridas se tornarem expostas. Ambos deixam um rastro de destruição persistente: enquanto o lixo atômico permanece perigoso por muitas e muitas décadas, o racismo ambiental perpetua vulnerabilidades sistêmicas que atravessam gerações, transformando territórios marginalizados em verdadeiras zonas de sacrifício (Svampa; Viale, 2025). Como defendo a partir de uma ótica ecofeminista interseccional, uma sociedade justa exige o rompimento definitivo com essa lógica da dominação que, como um isótopo instável, continua a degradar a vida em todas as suas formas. É urgente que a práxis oriente uma justiça que reconheça as feridas abertas nesses territórios, pois não haverá justiça ambiental sem o enfrentamento direto ao racismo que decide quem pode ser sacrificado sob o brilho da negligência. Referências BULLARD, Robert D (ed.). Confronting Environmental Racism: Voices from the Grassroots. Boston: South End Press, 1993. CENTRO BRASILEIRO DE JUSTIÇA CLIMÁTICA. Dossiê Reparação: Um diagnóstico sobre populações negras e afrodescendentes em espaços multilaterais de governança climática. [S. l.]: cbjc, 2026. Disponível em: https://cbjc.com.br. Acesso em: 9 abr. 2026. COLLINS, Patricia Hill. Se perdeu na tradução? Feminismo negro, interseccionalidade e política emancipatória. Parágrafo, v. 5, n. 1, jan./jun. 2017, p. 6-17. Disponível em: http://revistaseletronicas.fiamfaam.br/index.php/recicofi/article/view/559. Acesso em: 13 jun. 2018. MAPA DE CONFLITOS ENVOLVENDO INJUSTIÇA AMBIENTAL E SAÚDE NO BRASIL. GO – Vítimas do Césio 137 até hoje lutam pelo reconhecimento pleno de seus direitos. [S. l.], 2019. Disponível em: http://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br. Acesso em: 9 abr. 2026. OLIVEIRA, Fabio A. G. ; ROSENDO, Daniela. O descuido como uma forma de injustiça: contribuições a partir de olhares ecofeministas. MAIS QUE AMELIAS, v. 1, p. 1, 2020. Disponível em: https://rstmaisqueamelias.wixsite.com/maisqueamelias/2020. Acesso em: 9 abr. 2026. ROSENDO, Daniela. Quilt ecofeminista sensível ao cuidado: uma concepção de justiça social, ambiental e interespécies. 237 f. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Federal de Santa Catarina. 2019. SVAMPA, Maristella; VIALE, Enrique. Transição ecossocial justa: Uma perspectiva do Sul Global. Trad. Reginaldo Pujol Filho, Daniela Fernandes Alarcon. São paulo: Elefante, 2025.

Chegamos hoje ao útimo dia da Campanha 21 Dias de Ativismo pelo Fim do Racismo e da Violência Contra Mulheres, no Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Em 1999, a Assembleia Geral das Nações Unidas designou oficialmente o dia 25 de novembro como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, em homenagem às irmãs Mirabal, conhecidas como “Las Mariposas” (As Borboletas).

A Campanha 16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência Contra Mulheres é uma iniciativa global que visa sensibilizar e mobilizar indivíduos e comunidades para tomarem medidas contra a violência baseada no gênero. No Brasil, nos últimos anos, a campanha ganhou alguns dias a mais, iniciando no Dia da Consciência Negra,

O que há para se comemorar com a possibilidade de israelenses optarem por alimentação vegana, botas e boinas sintéticas ao servirem o exército? Muito pouco, eu diria. É preciso ampliar o olhar para além dessa possibilidade de escolha para quem cumpre o serviço militar e ver em qual contexto essa questão se insere. Isso quer dizer que não devemos comemorar “pequenas vitórias”? Não, afinal sabemos que a exploração dos animais não acabará de um dia para o outro e que mudanças estruturais podem levar um bom tempo. A questão sobre a qual quero chamar a atenção aqui é em relação ao uso dos direitos animais com outras intenções que não, de fato, promovê-los. Em Israel, homens são obrigados a servir por 3 anos e mulheres por 2. Passado esse tempo, homens ainda precisam cumprir de 30 a 60 dias a cada ano, até completarem 40 anos de idade. Para a maioria dos/das jovens isso é algo plenamente normal, pois desde a infância vivem em uma sociedade altamente militarizada. Na escola, aprendem a contar com bandeiras, aviões, tanques e outros símbolos que visam institucionalizar a conexão entre a militarização e a paz. Ao contrário do que orienta o Direito Internacional, há permissão para civis portarem armas e, portanto, as crianças crescem acostumadas com elas ao ponto de chegarem aos 18 anos e andarem tranquilamente portando fuzis nos ombros. No entanto, alguns/mas jovens se recusam a servir e, no exercício democrático de objeção de consciência, cumprem a pena de prisão para não compactuarem com algo com que não concordam. A discordância pode ser de origem religiosa (judeus ultra-ortodoxos são isentos do serviço militar), ou por não concordarem com a própria militarização da sociedade e, especialmente, serem contra a ocupação da Palestina. Desde 1967 Israel mantém o território palestino não só ocupado, mas colonizado. Cada vez mais colônias têm sido construídas e habitadas por colonos/as israelenses em terras palestinas. Além de, novamente, contrariar o Direito Internacional a ocupação traz consequências avassaladoras para o povo palestino, como o apartheid. Israel controla todo o território, logo tem domínio sobre a água e a energia elétrica também. Enquanto casas palestinas estão sujeitas à falta de ambos, nas colônias nunca falta esse tipo de suprimento. Além disso, nem todas as estradas e checkpoints podem ser utilizadas por palestinos/as. Algumas são exclusivas para colonos/as. Em última instância, Israel controla a vida e a morte de cada palestino/a, em uma relação altamente assimétrica; basta lembrar que o porte de arma é ilegal para quem vive na Cisjordânia e muitos protestos são pacíficos, sem quaisquer tipos de armas, nem mesmo pedras. Contudo, algumas estratégias são utilizadas pelo Estado de Israel para que o mundo não veja o genocídio praticado contra o povo palestino. Uma delas é o pink-washing, ou seja, o uso de direitos LGBTQIA+ para dar a impressão ao mundo de que um país que respeita a diversidade não poderia estar engajado em uma limpeza étnica. Outra tática, semelhante, é o vegan-washing: o uso do discurso dos direitos animais sem, de fato, se preocupar com a prática, com a intenção, tão somente, em apresentar uma imagem amigável (vegan friendly). Nesse contexto, quando o exército israelense oferece refeições veganas e vestuário sintético, ele está fazendo vegan-washing. Um exemplo que nos mostra que os animais estão sendo usados para esse fim é o uso de cães vindos da Holanda e treinados para atacar palestinos e árabes, distinguidos pelas suas roupas e linguagem. Os cães são utilizados como um meio de consolidar a ocupação militar israelense na Palestina, ferindo e matando pessoas. Não há nada de vegano nisso. Se o veganismo está comprometido com o fim da exploração animal, não deve ser conivente com a opressão humana. E o que nós podemos fazer de longe, além de não bater palmas para o vegan-washing? Uma das possibilidades é apoiar o BDS (Calls for Boycott, Divestment and Sanctions against Israel), movimento de boicote, desinvestimentos e sanções, contra o Estado de Israel. O boicote foi utilizado para pressionar o fim da segregação racial na África do Sul e agora tem sido utilizado pelo fim do apartheid na Palestina. Uma primeira ação poderia ser conhecer o trabalho da Palestinian Animal League, uma organização que atua no território palestino em prol da libertação animal e humana. Desta forma, é possível apoiar as ações protagonizadas pelo próprio povo palestino, conhecer as diferentes maneiras pelas quais a opressão é perpetuada e a maneira pela qual podemos, por meio de práticas individuais e coletivas, boicotá-la. Publicado na coluna Último Crime, da sobinfluencia edições, em 19 de setembro de 2021https://www.sobinfluencia.com/post/vegan-washing

Parece uma obviedade afirmar que quem nasce no Brasil é brasileiro/a. Nem tão óbvio é dizer que quem nasce no Brasil também é latino/a. Essa identidade regional não é tão nítida assim para muitas pessoas. Ao contrário, eu arriscaria dizer que brasileiros/as são, em geral, apartados de sua região. Será que faz diferença se reconhecer latina? A partir daqui, continuarei escrevendo no feminino – como subversão da norma que universaliza o masculino – para me referir a todos os gêneros. Quando fui à escola, o ensino ainda era dividido em primário e ginásio. Nesse importante marco para mim (e possivelmente para tantas outras meninas) – que era praticamente um divisor escolar entre infância e adolescência -, a quarta série (o último ano do primário) representava uma transição para a nova forma de organização do tempo e espaço na escola. Foi nesse ano que minhas manhãs passaram a ser divididas em matérias lecionadas tanto em salas de aula quanto por professoras diferentes (até aqui, todas professoras mulheres… foi só na quinta série que passei a ter meu primeiro professor homem, não surpreendentemente em uma disciplina de ciências exatas – matemática). Assim, foi no final do terceiro ano, ao fazer a matrícula para o quarto, que me deparei com uma das minhas primeiras escolhas escolares (em retrospectiva, sou extremamente grata a minha mãe e meu pai que me deram autonomia para fazer essa escolha, mas esse é um papo – da autonomia progressiva de crianças e adolescentes – para outro dia). Dentre as matérias que eu teria no ano seguinte, havia também o ensino de língua estrangeira e me foram ofertadas 3 opções: inglês, alemão ou espanhol. Levantei algumas considerações sobre cada idioma e fui resolutiva na minha decisão: espanhol. Lembro bem de um dos motivos que pesaram na minha escolha: a criação do Mercosul. Aos 10 anos, eu não entendia os aspectos políticos que uma integração econômica representava. Hoje, acredito que fui mobilizada pelo desejo de eu mesma me integrar a minha região, por meio do idioma. Eu queria aprender a me comunicar com essas pessoas que, apesar de falarem outra língua, teriam outros aspectos em comum comigo. Eu não tinha ideia do que seriam esses possíveis interesses a serem compartilhados, mas havia um desejo de troca e um esboço de colaboração em prol de algo a ser feito conjuntamente. Quase 15 anos depois de começar a estudar esse idioma que tanto me encantou, veio outro marco na construção da minha identidade latina: passei a integrar uma rede feminista latinoamericana e caribenha de defesa dos direitos das mulheres, o CLADEM. Foi a partir dessa época que passei também a “sair a caminhar pela cintura cósmica do sul”, inspirada por cantoras que me tocavam de um jeito especial… era (e continua sendo) algo como acender uma chama no peito. Aliás, essas caminhadas são sempre acompanhadas pelas músicas que cantam nossas dores e nos acolhem, possibilitando transmutar o sofrimento em resistência e luta. Minha última andança pela região foi em novembro passado, para o extremo sul da Argentina. Voltando do fim do mundo, fiz uma passagem rápida por Buenos Aires e depois de algumas horas visitando o MALBA – o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, fui dar uma olhada nos filmes que estavam em cartaz por lá. Para minha sorte, um deles era Que sea ley, um documentário que mostra a luta do movimento feminista na Argentina para legalizar o aborto no país. Em junho de 2018, o projeto que legalizava o aborto até a 14ª semana de gestação foi aprovado na Câmara dos Deputados. O Senado, contudo, o rejeitou. As mulheres argentinas continuam sendo criminalizadas, assim como quase todas nós que vivemos na região. Em alguns países – El Salvador, Honduras, Haiti, Nicarágua, República Dominicana e Suriname – a interrupção voluntária da gravidez é completamente proibida. Se a vida de uma mulher estiver em risco, a gestação – ainda que muito recente – é privilegiada sem considerar que o embrião depende dessa vida para poder se desenvolver. Nesses contextos, até mesmo mulheres que sofrem abortos espontâneos são, por vezes, criminalizadas. Na região, a maioria dos países permitem a interrupção voluntária somente para salvar a vida da mulher. Alguns permitem também em casos de gravidez resultante de estupro – como Brasil, Panamá e Chile – e anomalias fetais graves. Uruguai, Cuba e Guiana são as exceções, onde se permite a interrupção até a décima ou décima segunda semana de gestação. Dessa forma, a legalização do aborto ainda é uma dívida dos países latino americanos com os direitos humanos das mulheres. Que sea ley nos fazer reviver toda a tristeza que sentimos (nós, feministas e progressistas) quando o projeto de lei argentino não foi aprovado. Ali, é possível sentir o que Vilma Piedade comunica ao afirmar que não é pela soridade que as mulheres se irmanam, mas pela dororidade. Quase todas as pessoas que assistiam a sessão eram mulheres. Quando o filme terminou, estávamos todas chorando, trocando olhares e gestos de acolhimento. Aquele choro que é fruto da dor. A dor do mundo. É uma dor coletiva, não individualizada. Levei alguns minutos para conseguir me recompor e reunir forças para levantar. Saindo da sala de cinema, ainda havia outra mulher, sentada na última fileira. Ela ainda chorava muito. Fui em direção à saída mas, sentindo a dor dela, voltei. Parei diante dela, que ergueu a cabeça com os olhos inchados, tanto quanto os meus. Estendi os braços e ficamos ali, abraçadas, chorando e buscando respirar fundo, enquanto saíam algumas palavras do quanto isso nos doía e era injusto. Por fim, nos olhamos profundamente nos olhos uma da outra e eu lhe disse: que sea ley. Será lei. Na Argentina, Alberto Fernández – o novo presidente – venceu as eleições com o compromisso de assumir a pauta da descriminalização do aborto. Ainda não sabemos quando isso irá ocorrer, mas não descansaremos enquanto todas as mulheres – não só as que podem pagar por um procedimento seguro – tenham plenos direitos reprodutivos. Mas






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