Autocuidado

Sensível ao Cuidado: Uma perspectiva ética ecofeminista” é o primeiro livro em voo solo de Daniela Rosendo. Pioneira no Brasil, a obra foi publicada em 2015 e introduz, na literatura feminista em língua portuguesa, a questão da opressão sobre as mulheres, os animais e a natureza. O livro impresso está esgotado, mas aqui você pode visualizar e baixar a versão digital.

woman yoga beach
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Entre Oriente e Ocidente, sou latina

Parece uma obviedade afirmar que quem nasce no Brasil é brasileiro/a. Nem tão óbvio é dizer que quem nasce no Brasil também é latino/a. Essa identidade regional não é tão nítida assim para muitas pessoas. Ao contrário, eu arriscaria dizer que brasileiros/as são, em geral, apartados de sua região. Será que faz diferença se reconhecer latina? A partir daqui, continuarei escrevendo no feminino – como subversão da norma que universaliza o masculino – para me referir a todos os gêneros. Quando fui à escola, o ensino ainda era dividido em primário e ginásio. Nesse importante marco para mim (e possivelmente para tantas outras meninas) – que era praticamente um divisor escolar entre infância e adolescência -, a quarta série (o último ano do primário) representava uma transição para a nova forma de organização do tempo e espaço na escola. Foi nesse ano que minhas manhãs passaram a ser divididas em matérias lecionadas tanto em salas de aula quanto por professoras diferentes (até aqui, todas professoras mulheres… foi só na quinta série que passei a ter meu primeiro professor homem, não surpreendentemente em uma disciplina de ciências exatas – matemática). Assim, foi no final do terceiro ano, ao fazer a matrícula para o quarto, que me deparei com uma das minhas primeiras escolhas escolares (em retrospectiva, sou extremamente grata a minha mãe e meu pai que me deram autonomia para fazer essa escolha, mas esse é um papo – da autonomia progressiva de crianças e adolescentes – para outro dia). Dentre as matérias que eu teria no ano seguinte, havia também o ensino de língua estrangeira e me foram ofertadas 3 opções: inglês, alemão ou espanhol. Levantei algumas considerações sobre cada idioma e fui resolutiva na minha decisão: espanhol. Lembro bem de um dos motivos que pesaram na minha escolha: a criação do Mercosul. Aos 10 anos, eu não entendia os aspectos políticos que uma integração econômica representava. Hoje, acredito que fui mobilizada pelo desejo de eu mesma me integrar a minha região, por meio do idioma. Eu queria aprender a me comunicar com essas pessoas que, apesar de falarem outra língua, teriam outros aspectos em comum comigo. Eu não tinha ideia do que seriam esses possíveis interesses a serem compartilhados, mas havia um desejo de troca e um esboço de colaboração em prol de algo a ser feito conjuntamente. Quase 15 anos depois de começar a estudar esse idioma que tanto me encantou, veio outro marco na construção da minha identidade latina: passei a integrar uma rede feminista latinoamericana e caribenha de defesa dos direitos das mulheres, o CLADEM. Foi a partir dessa época que passei também a “sair a caminhar pela cintura cósmica do sul”, inspirada por cantoras que me tocavam de um jeito especial… era (e continua sendo) algo como acender uma chama no peito. Aliás, essas caminhadas são sempre acompanhadas pelas músicas que cantam nossas dores e nos acolhem, possibilitando transmutar o sofrimento em resistência e luta. Minha última andança pela região foi em novembro passado, para o extremo sul da Argentina. Voltando do fim do mundo, fiz uma passagem rápida por Buenos Aires e depois de algumas horas visitando o MALBA – o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, fui dar uma olhada nos filmes que estavam em cartaz por lá. Para minha sorte, um deles era Que sea ley, um documentário que mostra a luta do movimento feminista na Argentina para legalizar o aborto no país. Em junho de 2018, o projeto que legalizava o aborto até a 14ª semana de gestação foi aprovado na Câmara dos Deputados. O Senado, contudo, o rejeitou. As mulheres argentinas continuam sendo criminalizadas, assim como quase todas nós que vivemos na região. Em alguns países – El Salvador, Honduras, Haiti, Nicarágua, República Dominicana e Suriname – a interrupção voluntária da gravidez é completamente proibida. Se a vida de uma mulher estiver em risco, a gestação – ainda que muito recente – é privilegiada sem considerar que o embrião depende dessa vida para poder se desenvolver. Nesses contextos, até mesmo mulheres que sofrem abortos espontâneos são, por vezes, criminalizadas. Na região, a maioria dos países permitem a interrupção voluntária somente para salvar a vida da mulher. Alguns permitem também em casos de gravidez resultante de estupro – como Brasil, Panamá e Chile – e anomalias fetais graves. Uruguai, Cuba e Guiana são as exceções, onde se permite a interrupção até a décima ou décima segunda semana de gestação. Dessa forma, a legalização do aborto ainda é uma dívida dos países latino americanos com os direitos humanos das mulheres. Que sea ley nos fazer reviver toda a tristeza que sentimos (nós, feministas e progressistas) quando o projeto de lei argentino não foi aprovado. Ali, é possível sentir o que Vilma Piedade comunica ao afirmar que não é pela soridade que as mulheres se irmanam, mas pela dororidade. Quase todas as pessoas que assistiam a sessão eram mulheres. Quando o filme terminou, estávamos todas chorando, trocando olhares e gestos de acolhimento. Aquele choro que é fruto da dor. A dor do mundo. É uma dor coletiva, não individualizada. Levei alguns minutos para conseguir me recompor e reunir forças para levantar. Saindo da sala de cinema, ainda havia outra mulher, sentada na última fileira. Ela ainda chorava muito. Fui em direção à saída mas, sentindo a dor dela, voltei. Parei diante dela, que ergueu a cabeça com os olhos inchados, tanto quanto os meus. Estendi os braços e ficamos ali, abraçadas, chorando e buscando respirar fundo, enquanto saíam algumas palavras do quanto isso nos doía e era injusto. Por fim, nos olhamos profundamente nos olhos uma da outra e eu lhe disse: que sea ley. Será lei. Na Argentina, Alberto Fernández – o novo presidente – venceu as eleições com o compromisso de assumir a pauta da descriminalização do aborto. Ainda não sabemos quando isso irá ocorrer, mas não descansaremos enquanto todas as mulheres – não só as que podem pagar por um procedimento seguro – tenham plenos direitos reprodutivos. Mas

Happy free woman dancing in raps field at golden hour
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Corpo são, mente sã

Dia desses, passei algumas horas me conectando comigo mesma, com meu corpo – tão negligenciado nos últimos anos – numa oficina de danças afro. Recentemente, percebi que tratei meu corpo como mero meio (para o trabalho mental), ao invés de dispensar um tratamento digno que o considerasse um fim em si mesmo. No entanto, dessa constatação não decorreu imediatamente um movimento de superação desse limite. Cada vez que uma médica ou uma terapeuta me recomendava fortemente fazer atividade física (sob a pena de meu corpo me impor limites e me fazer parar e olhar para ele, da pior maneira possível), eu imediatamente criava barreiras e pensava como seria difícil transpor minha absoluta falta de vontade para ir à academia ou, se eu não estivesse interessada nesse ambiente fechado (como nunca estive), simplesmente sair para caminhar como parte da minha rotina diária. Tentei fazer alguns movimentos em direção a essa superação. Por três anos consecutivos, consegui fazer pilates com uma profissional que me acolheu e entendeu os meus limites. Apesar de as aulas terem sido muito prejudicadas, em alguns períodos, pela minha rotina de viagens a trabalho e estudo, tive uma professora que sempre manteve o seu compromisso em me ajudar e possibilitar que eu saísse da aula melhor do que eu havia entrado. Eu chegava sempre com tantas dores na lombar e na cervical que, em todos esses anos, eu mal consegui sair do alongamento e trabalhar força. Não tenho dúvida que essa prática foi crucial para que eu não tivesse literalmente travado nestes últimos anos, mas ainda me faltava fôlego. Lembro bem de um episódio que aconteceu em janeiro de 2015. Eu estava de férias e, numa passagem por Porto Alegre, fui ao cinema assistir Brincante – o Filme, que – de forma lírica – conta a história do artista pernambucano Antônio Nóbrega. Aos meus olhos, biografia, resistência e a lindeza da cultura popular se fundiam em perfeita harmonia. Em algum momento do filme, desatei a chorar e a me perguntar: “o quê que eu tô fazendo com meu corpo?” Tonheta, o personagem, perguntava: “Estás com goteira no pulmão ou engarrafamento nas artérias? Estás com ferrugem nas juntas ou soltura nos intestinos?” Apesar de ter sido muito tocada – senti uma vontade imensa de sair da sala de cinema pulando e brincando – fui incapaz de mobilizar esse desejo e transformá-lo em ação. Muitas e muitas vezes eu me perguntei sobre os motivos desse descompasso. Na escola, eu sofria com as aulas de educação física e tinha vontade de sumir quando saíamos da sala para ir à quadra. No mata-soldado, era o meu medo de ser acertada pela bola que fazia com que, de vez em quando, eu fosse uma das últimas a ser o alvo – para aumento da minha tortura. Eu costumava associar o medo de ser machucada pela bola ao fato de não ser boa nos esportes coletivos, à dificuldade para lidar com a competitividade, à timidez e à vergonha. Recentemente, assistindo esse vídeo de Louie Ponto, percebi que talvez o que eu considerasse ser timidez e vergonha era também ansiedade, mas esse já é outro assunto. Além disso, desde a pré-adolescência, quando comecei a andar um pouco mais sozinha pela cidade, a pé ou de ônibus, eu me sentia ultrajada com qualquer tipo de assédio. Era um misto de repulsa e medo daqueles homens que mexiam com um menina na rua, que anos depois – já feminista – fui compreender como uma forma de violência. Acredito que essa combinação do assédio com a preguiça que me acompanhou durante a adolescência marcaram, ao menos em parte, a minha forma de estar no mundo até hoje. Mas, apesar da falta de aptidão para os esportes e da preguiça juvenil, tinha algo que eu amava: dançar. Aos 7 anos, comecei a fazer jazz. No início, eram duas vezes por semana. Uns três anos mais tarde, fui promovida à turma das meninas mais velhas e passei a ir três vezes por semana. Eu gostava tanto, mas tanto, de dançar que houve épocas em que eu não andava: eu me deslocava dançando. Eu acompanhava minha mãe na fila dançando; eu saía da mesa do almoço e ficava fazendo espacate na cozinha. Eu tinha uma flexibilidade incrível! Uma vez, minha prima ficou tão irritada comigo que me mandou parar de dançar. Não lembro se estávamos num estacionamento de mercado ou num shopping. Fiquei meio chocada e bastante constrangida com a reação dela (minha prima era minha ídola), acho que fiquei um pouco quieta em seguida, mas não me abalei por muito tempo. Depois de 5 anos de jazz, aos 12 anos eu parei abruptamente de fazer atividade física. Apesar do amor pela dança, eu me vi limitada onde estava e, sem ver a possibilidade de seguir por outro caminho, desisti. Na cidade onde nasci e fui criada, Joinville, acontece o maior festival de dança da América Latina. O lugar onde eu fazia jazz era uma sociedade recreativa de uma grande empresa da cidade, perto de onde eu morava, e, portanto, ficávamos no campo do amadorismo. Em julho, quando acontecia o festival, chegávamos a nos apresentar em alguns palcos livres – em shoppings, praças e empresas -, mas nunca competimos, nem chegaríamos a fazê-lo. Desconfio que meu sonho não era necessariamente competir, mas ser uma dançarina melhor e mais reconhecida. Eu queria ser boa na dança; não necessariamente a melhor. Tinha algo de superação individual… quando cheguei num limite intransponível para mim naquele momento, desisti. A única saída que eu vislumbrava era mudar para uma escola de dança melhor, mas isso significava uma mensalidade bem mais cara – que naquele momento minha família não poderia suportar. Nessa época, além da escola privada, eu já fazia um curso de inglês em uma boa escola. Eu já era bastante privilegiada, apesar de levar muitos anos para reconhecer isso depois. Contudo, passei duas décadas sofrendo com a ausência da dança no meu dia-a-dia. Levei todo esse tempo também para ir novamente assistir uma apresentação