NextLink

Sensível ao Cuidado: Uma perspectiva ética ecofeminista” é o primeiro livro em voo solo de Daniela Rosendo. Pioneira no Brasil, a obra foi publicada em 2015 e introduz, na literatura feminista em língua portuguesa, a questão da opressão sobre as mulheres, os animais e a natureza. O livro impresso está esgotado, mas aqui você pode visualizar e baixar a versão digital.

Vegan balance vegetables
Publicações

Vegan Washing

O que há para se comemorar com a possibilidade de israelenses optarem por alimentação vegana, botas e boinas sintéticas ao servirem o exército? Muito pouco, eu diria. É preciso ampliar o olhar para além dessa possibilidade de escolha para quem cumpre o serviço militar e ver em qual contexto essa questão se insere. Isso quer dizer que não devemos comemorar “pequenas vitórias”? Não, afinal sabemos que a exploração dos animais não acabará de um dia para o outro e que mudanças estruturais podem levar um bom tempo. A questão sobre a qual quero chamar a atenção aqui é em relação ao uso dos direitos animais com outras intenções que não, de fato, promovê-los. Em Israel, homens são obrigados a servir por 3 anos e mulheres por 2. Passado esse tempo, homens ainda precisam cumprir de 30 a 60 dias a cada ano, até completarem 40 anos de idade. Para a maioria dos/das jovens isso é algo plenamente normal, pois desde a infância vivem em uma sociedade altamente militarizada. Na escola, aprendem a contar com bandeiras, aviões, tanques e outros símbolos que visam institucionalizar a conexão entre a militarização e a paz. Ao contrário do que orienta o Direito Internacional, há permissão para civis portarem armas e, portanto, as crianças crescem acostumadas com elas ao ponto de chegarem aos 18 anos e andarem tranquilamente portando fuzis nos ombros. No entanto, alguns/mas jovens se recusam a servir e, no exercício democrático de objeção de consciência, cumprem a pena de prisão para não compactuarem com algo com que não concordam. A discordância pode ser de origem religiosa (judeus ultra-ortodoxos são isentos do serviço militar), ou por não concordarem com a própria militarização da sociedade e, especialmente, serem contra a ocupação da Palestina. Desde 1967 Israel mantém o território palestino não só ocupado, mas colonizado. Cada vez mais colônias têm sido construídas e habitadas por colonos/as israelenses em terras palestinas. Além de, novamente, contrariar o Direito Internacional a ocupação traz consequências avassaladoras para o povo palestino, como o apartheid. Israel controla todo o território, logo tem domínio sobre a água e a energia elétrica também. Enquanto casas palestinas estão sujeitas à falta de ambos, nas colônias nunca falta esse tipo de suprimento. Além disso, nem todas as estradas e checkpoints podem ser utilizadas por palestinos/as. Algumas são exclusivas para colonos/as. Em última instância, Israel controla a vida e a morte de cada palestino/a, em uma relação altamente assimétrica; basta lembrar que o porte de arma é ilegal para quem vive na Cisjordânia e muitos protestos são pacíficos, sem quaisquer tipos de armas, nem mesmo pedras. Contudo, algumas estratégias são utilizadas pelo Estado de Israel para que o mundo não veja o genocídio praticado contra o povo palestino. Uma delas é o pink-washing, ou seja, o uso de direitos LGBTQIA+ para dar a impressão ao mundo de que um país que respeita a diversidade não poderia estar engajado em uma limpeza étnica. Outra tática, semelhante, é o vegan-washing: o uso do discurso dos direitos animais sem, de fato, se preocupar com a prática, com a intenção, tão somente, em apresentar uma imagem amigável (vegan friendly). Nesse contexto, quando o exército israelense oferece refeições veganas e vestuário sintético, ele está fazendo vegan-washing. Um exemplo que nos mostra que os animais estão sendo usados para esse fim é o uso de cães vindos da Holanda e treinados para atacar palestinos e árabes, distinguidos pelas suas roupas e linguagem. Os cães são utilizados como um meio de consolidar a ocupação militar israelense na Palestina, ferindo e matando pessoas. Não há nada de vegano nisso. Se o veganismo está comprometido com o fim da exploração animal, não deve ser conivente com a opressão humana. E o que nós podemos fazer de longe, além de não bater palmas para o vegan-washing? Uma das possibilidades é apoiar o BDS (Calls for Boycott, Divestment and Sanctions against Israel), movimento de boicote, desinvestimentos e sanções, contra o Estado de Israel. O boicote foi utilizado para pressionar o fim da segregação racial na África do Sul e agora tem sido utilizado pelo fim do apartheid na Palestina. Uma primeira ação poderia ser conhecer o trabalho da Palestinian Animal League, uma organização que atua no território palestino em prol da libertação animal e humana. Desta forma, é possível apoiar as ações protagonizadas pelo próprio povo palestino, conhecer as diferentes maneiras pelas quais a opressão é perpetuada e a maneira pela qual podemos, por meio de práticas individuais e coletivas, boicotá-la. Publicado na coluna Último Crime, da sobinfluencia edições, em 19 de setembro de 2021https://www.sobinfluencia.com/post/vegan-washing

woman yoga beach
Autocuidado

Entre Oriente e Ocidente, sou latina

Parece uma obviedade afirmar que quem nasce no Brasil é brasileiro/a. Nem tão óbvio é dizer que quem nasce no Brasil também é latino/a. Essa identidade regional não é tão nítida assim para muitas pessoas. Ao contrário, eu arriscaria dizer que brasileiros/as são, em geral, apartados de sua região. Será que faz diferença se reconhecer latina? A partir daqui, continuarei escrevendo no feminino – como subversão da norma que universaliza o masculino – para me referir a todos os gêneros. Quando fui à escola, o ensino ainda era dividido em primário e ginásio. Nesse importante marco para mim (e possivelmente para tantas outras meninas) – que era praticamente um divisor escolar entre infância e adolescência -, a quarta série (o último ano do primário) representava uma transição para a nova forma de organização do tempo e espaço na escola. Foi nesse ano que minhas manhãs passaram a ser divididas em matérias lecionadas tanto em salas de aula quanto por professoras diferentes (até aqui, todas professoras mulheres… foi só na quinta série que passei a ter meu primeiro professor homem, não surpreendentemente em uma disciplina de ciências exatas – matemática). Assim, foi no final do terceiro ano, ao fazer a matrícula para o quarto, que me deparei com uma das minhas primeiras escolhas escolares (em retrospectiva, sou extremamente grata a minha mãe e meu pai que me deram autonomia para fazer essa escolha, mas esse é um papo – da autonomia progressiva de crianças e adolescentes – para outro dia). Dentre as matérias que eu teria no ano seguinte, havia também o ensino de língua estrangeira e me foram ofertadas 3 opções: inglês, alemão ou espanhol. Levantei algumas considerações sobre cada idioma e fui resolutiva na minha decisão: espanhol. Lembro bem de um dos motivos que pesaram na minha escolha: a criação do Mercosul. Aos 10 anos, eu não entendia os aspectos políticos que uma integração econômica representava. Hoje, acredito que fui mobilizada pelo desejo de eu mesma me integrar a minha região, por meio do idioma. Eu queria aprender a me comunicar com essas pessoas que, apesar de falarem outra língua, teriam outros aspectos em comum comigo. Eu não tinha ideia do que seriam esses possíveis interesses a serem compartilhados, mas havia um desejo de troca e um esboço de colaboração em prol de algo a ser feito conjuntamente. Quase 15 anos depois de começar a estudar esse idioma que tanto me encantou, veio outro marco na construção da minha identidade latina: passei a integrar uma rede feminista latinoamericana e caribenha de defesa dos direitos das mulheres, o CLADEM. Foi a partir dessa época que passei também a “sair a caminhar pela cintura cósmica do sul”, inspirada por cantoras que me tocavam de um jeito especial… era (e continua sendo) algo como acender uma chama no peito. Aliás, essas caminhadas são sempre acompanhadas pelas músicas que cantam nossas dores e nos acolhem, possibilitando transmutar o sofrimento em resistência e luta. Minha última andança pela região foi em novembro passado, para o extremo sul da Argentina. Voltando do fim do mundo, fiz uma passagem rápida por Buenos Aires e depois de algumas horas visitando o MALBA – o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, fui dar uma olhada nos filmes que estavam em cartaz por lá. Para minha sorte, um deles era Que sea ley, um documentário que mostra a luta do movimento feminista na Argentina para legalizar o aborto no país. Em junho de 2018, o projeto que legalizava o aborto até a 14ª semana de gestação foi aprovado na Câmara dos Deputados. O Senado, contudo, o rejeitou. As mulheres argentinas continuam sendo criminalizadas, assim como quase todas nós que vivemos na região. Em alguns países – El Salvador, Honduras, Haiti, Nicarágua, República Dominicana e Suriname – a interrupção voluntária da gravidez é completamente proibida. Se a vida de uma mulher estiver em risco, a gestação – ainda que muito recente – é privilegiada sem considerar que o embrião depende dessa vida para poder se desenvolver. Nesses contextos, até mesmo mulheres que sofrem abortos espontâneos são, por vezes, criminalizadas. Na região, a maioria dos países permitem a interrupção voluntária somente para salvar a vida da mulher. Alguns permitem também em casos de gravidez resultante de estupro – como Brasil, Panamá e Chile – e anomalias fetais graves. Uruguai, Cuba e Guiana são as exceções, onde se permite a interrupção até a décima ou décima segunda semana de gestação. Dessa forma, a legalização do aborto ainda é uma dívida dos países latino americanos com os direitos humanos das mulheres. Que sea ley nos fazer reviver toda a tristeza que sentimos (nós, feministas e progressistas) quando o projeto de lei argentino não foi aprovado. Ali, é possível sentir o que Vilma Piedade comunica ao afirmar que não é pela soridade que as mulheres se irmanam, mas pela dororidade. Quase todas as pessoas que assistiam a sessão eram mulheres. Quando o filme terminou, estávamos todas chorando, trocando olhares e gestos de acolhimento. Aquele choro que é fruto da dor. A dor do mundo. É uma dor coletiva, não individualizada. Levei alguns minutos para conseguir me recompor e reunir forças para levantar. Saindo da sala de cinema, ainda havia outra mulher, sentada na última fileira. Ela ainda chorava muito. Fui em direção à saída mas, sentindo a dor dela, voltei. Parei diante dela, que ergueu a cabeça com os olhos inchados, tanto quanto os meus. Estendi os braços e ficamos ali, abraçadas, chorando e buscando respirar fundo, enquanto saíam algumas palavras do quanto isso nos doía e era injusto. Por fim, nos olhamos profundamente nos olhos uma da outra e eu lhe disse: que sea ley. Será lei. Na Argentina, Alberto Fernández – o novo presidente – venceu as eleições com o compromisso de assumir a pauta da descriminalização do aborto. Ainda não sabemos quando isso irá ocorrer, mas não descansaremos enquanto todas as mulheres – não só as que podem pagar por um procedimento seguro – tenham plenos direitos reprodutivos. Mas

Ecofeminismo

Nós, as Vulneráveis: a Dimensão Ética-política do Cuidado de Nós Mesmas

Em novembro de 2018, participei do I Colóquio Internacional de Educação em Direitos Humanos, que celebrava os 15 anos do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH). Na época, eu estava na coordenação do IDDH, uma organização brasileira pioneira na atuação junto a política de EDH no país e na região latinoamericana. Ocupávamos, inclusive, uma cadeira do finado Conselho Nacional de Educação em Direitos Humanos, representando a sociedade civil. Uma das mesas que integrei no colóquio era composta por figuras de peso na defesa dos direitos humanos no Brasil, daquelas históricas mesmo, que vêm nessa militância desde antes de eu nascer. E lá estava eu, diante de um auditório na Universidade de Brasília, ao lado de Lurdinha Nunes e Moacir Gadotti. Em geral, nessa época eu já havia me habituado bem a dar aulas, proferir palestras e falar publicamente sem ficar extremamente nervosa como acontecia anteriormente. Mas naquele 27 de novembro, às vésperas dos meus 34 anos, eu tremia, por dentro e por fora, as mãos suavam, a respiração era curta e o peito ardia. E eu me perguntava: “o que está acontecendo? Por que isso?” Tentando – em vão – me acalmar, eu pensava “não fico mais nervosa para falar”. Diante daquela dificuldade tremenda de conseguir raciocinar de forma nítida e conseguir traduzir isso numa boa fala, comecei a me perguntar o que fazer diante dessa situação. Eu não tinha dúvida de que seria incapaz de disfarçar o nervosismo, então resolvi escancará-lo. Recebendo a palavra, cumprimentei as pessoas e contei o que eu estava sentindo. Foi aí que Gadotti pegou novamente o microfone e, num amoroso gesto de acolhimento, contou que Paulo Freire sempre ficava nervoso antes de alguma apresentação. Freire sabia da responsabilidade que tinha diante das pessoas a quem iria se dirigir. Ouvindo esse relato de um educador sensível, respirei e a vulnerabilidade que me fragilizava se tornou justamente a minha força. Esse episódio foi mais um daqueles que me ajudou a elaborar essa questão complexa da vulnerabilidade. Quase um ano depois, eu estava em um quadro grave de transtorno de ansiedade e depressão, que me tirava completamente a vontade de viver. No processo terapêutico, consegui perceber que meu corpo já vinha me dando sinais há um bom tempo de que eu estava adoecida mentalmente. Por isso, uma habilidade que eu já havia desenvolvido – a de me comunicar publicamente – estava prejudicada naquele meu novo contexto. Vários fatores me levaram a receber esse diagnóstico e me impuseram a necessidade do autocuidado. Passei uma década conjugando os desafios do trabalho remunerado (em vários períodos trabalhando em duas ou três instituições ao mesmo tempo) com as tarefas de cuidado (é puxado dar conta da vida, não é? Trabalho doméstico não acaba nunca), minha formação como pesquisadora (o que inclui muita produção intelectual não remunerada) e a militância. Participar ativamente dos movimentos sociais é ao mesmo tempo algo fundamental na minha constituição individual mas, na minha entrega para a construção coletiva, muitas vezes me negligenciei. O desequilíbrio prolongado desse modo de vida acabou se tornando insustentável. Curiosamente, em 2019 eu estava concluindo o doutoramento em Filosofia e uma das questões teóricas que refletem na práxis ecofeminista que desenvolvo no âmbito de um projeto ético-político, fundamentado em uma ética sensível ao cuidado, é justamente a vulnerabilidade. Com filósofas feministas, em especial as eticistas do cuidado, aprendi que a vulnerabilidade é comumente associada a aspectos negativos, relacionados a danos, fragilidades e fraquezas. Muitas vezes, essa visão contribui para a construção de um paradigma de invulnerabilidade, ou seja, que simplesmente ignora uma característica da qual não podemos fugir. A vulnerabilidade está relacionada à capacidade de sofrer danos, sejam eles físicos, emocionais, psicológicos ou sociopolíticos. Ainda que eles possam ser minimizados, é impossível erradicá-los completamente. Por isso, a vulnerabilidade é uma característica geral e abrangente dos indivíduos, condicionando a vida de diversas maneiras. No entanto, ela não é sinônimo de fragilidade, fraqueza ou incapacidade. Ainda que seja em decorrência dessa condição, a vida não é afetada apenas de maneira negativa. É também em razão da vulnerabilidade que somos afetadas positivamente. São os cuidados que recebemos, desde o nascimento, que permitem o nosso crescimento. A questão é que a necessidade de cuidado não cessa nunca de forma absoluta, mesmo quando alcançamos a vida adulta. Ao longo da vida inteira, estamos numa condição de vulnerabilidade e co-dependência dadas por um conjunto de necessidades e capacidades físicas, cognitivas e sociais supridas por uma dimensão relacional. Ressignificar a vulnerabilidade nesses termos derruba também a noção de autossuficiência dos sujeitos. Junto ao paradigma da invulnerabilidade, está também o ideal da autonomia pensada como independência. Logo, assim como a vulnerabilidade é vista como negativa, a dependência também o é. O problema é que essa prática – e essa pretensa postura independente – gera privilégios para uns em detrimento de desvantagens para outros (ou, mais especificamente, outras) que precisam assumir as atividades do cuidado. Isso acarreta, consequentemente, em políticas desiguais de distribuição de cuidado no tecido social. A vulnerabilidade é experimentada de forma específica por cada indivíduo, dadas as circunstâncias que lhes são próprias, marcadas por relações pessoais, econômicas e institucionais. Como Ilze Zirbel explicou em sua tese de doutorado em Filosofia, o fechamento ético e epistêmico da postura de invulnerabilidade do sujeito acarreta não só uma forma de ignorar a dependência, mas também manter relações sociais opressoras e injustas. Por outro lado, o modelo de autonomia relacional ajuda a compreender o exercício da autonomia pelos indivíduos em diferentes contextos e condições marcados pela dependência. Trazendo essas ferramentas teóricas para a experiência do adoecimento mental, para além da obviedade de ser uma questão bastante complexa, quero chamar atenção para o fato de não ser apenas uma questão individual. Estamos diante de uma questão social e, portanto, também política. Desassociar transtornos mentais da noção de fraqueza, impotência, fragilidade, falta de vontade e afins, é não só incorreto, mas eu diria também injusto. Da perspectiva individual, há potência em se reconhecer vulnerável e co-dependente. Outras virtudes, como resiliência e coragem,

Woman buying flowers at a nursery
Ecofeminismo

Ecofeminismo(s): Por Que Mulheres, Animais e Natureza Sob o Mesmo Olhar?

Qualquer tema contra-hegemônico suscita críticas e questionamentos, especialmente por parte daqueles que querem manter a supremacia e não abrir mão de seus privilégios. Assim acontece com feminismos, ambientalismos e quaisquer movimentos que denunciem sistemas de opressão por raça/etnia, gênero, orientação sexual, classe e assim por diante. Quando compreendemos os direitos humanos como conquistas históricas, já nos parece mais visível a necessidade de um olhar atento às especificidades: não podemos mais afirmar direitos para sujeitos abstratos, pois, em realidade, eles representam um sujeito muito bem definido: ele é branco, heterossexual, classe média. Mas diferentes correntes feministas já nos mostraram também que tampouco se pode falar de uma mulher abstrata: temos cores, crenças, idades e desejos diversos. Uma mulher negra, lésbica e pobre sofre desproporcionalmente a opressão e as injustiças, se comparada a uma mulher branca, cis, hetero e rica. Hoje, embora se tenha essa visão das especificidades que afastam uma concepção universalista, ao longo dos últimos séculos, o pensamento feminista tem se expressado de diversas maneiras, por isso falamos em feminismos, no plural e não no singular. Cada uma dessas ondas, ou correntes, apresentam diferentes argumentos e fazem diferentes propostas, mas o comprometimento de todas é com a abolição do sexismo, ou seja, de um sistema de opressão baseado no sexo. Nesse sentido, muitas dessas correntes usam duas categorias fundamentais para o paradigma feminista: gênero e patriarcado. Mesmo que exista um longo debate sobre ambas, parto da ideia de que o patriarcado pode ser entendido como dominação masculina. Desse ponto de vista, se reconhece que a forma pela qual essa dominação ocorre depende do contexto, mas continua sendo a partir da alegada superioridade dos homens em relação às mulheres, gerando discriminações e injustiças. Gênero, por sua vez, passa a ser uma categoria de análise a partir da qual é possível compreender essa sociedade. Os papeis dos homens e das mulheres são construídos socialmente – e em oposição – a partir do sexo, determinando que o espaço público é deles e o privado é nosso. Nessa lógica, nossa voz é silenciada e a própria legitimidade de reivindicarmos nossos direitos é questionada pelo machismo, de forma misógina. Por trás desse pensamento funciona uma lógica dualista que associa os homens ao público e as mulheres ao privado, de forma também assimétrica, na medida em que os primeiros são mais valorizados em detrimento das mulheres e da esfera privada. Mas, afinal, qual é a relação entre a opressão das mulheres pelo machismo, e os animais e a natureza? As correntes ecofeministas apresentam diferentes respostas para essa pergunta, por isso podemos novamente chamar de ecofeminismos, no plural. Aliás, é importante ressaltar que nem todas elas incluem a consideração ética de animais, como indivíduos. Justamente por isso me posiciono a favor de um ecofeminismo animalista, a partir de uma argumentação filosófica, isto é, argumentativa e conceitual[1]. Na literatura ecofeminista, podem ser identificadas diversas interconexões entre a dominação das mulheres, dos animais e da natureza: histórica, conceitual, empírica, socioeconômica, linguística, simbólica e literária, espiritual e religiosa, epistemológica, política e ética[2]. Todas essas interconexões reforçam a necessidade de analisar criticamente os dualismos a partir dos quais nossa sociedade está estruturada, especialmente rompendo a barreira da espécie e, a partir da ampliação do círculo de moralidade, considerar também moralmente os animais e a natureza. Embora todas sejam importantes para corroborar a necessidade de um olhar atento às relações entre diferentes formas de opressão, a conexão empírica evidencia de maneira explícita essa necessidade: são as mulheres, ao lado de outros grupos em situação de vulnerabilidade, que sofrem mais com os problemas ambientais. Embora todas as pessoas possam estar sujeitas a eles, são as mulheres e crianças, por exemplo, que precisam caminhar longas distâncias para buscar água; a pobreza e a vulnerabilidade também têm gênero e leva as mulheres, muitas vezes líderes das suas famílias, a viverem em locais com problemas ambientais, como ocupações. Assim, podemos afirmar que os papeis de gênero femininos se justapõem com a questão ambiental, o que justifica uma ampliação da agenda feminista, a fim de que incorpore também uma visão não antropocêntrica e antiespecista. Ao reconhecer o nexo (a partir das diferentes formas de interconexão) entre os sistemas de opressão (racismo, classimo, heterossexismo, machismo, especismo etc.), o ecofeminismo animalista permite uma visão ampla das diferentes formas de opressão, dando sentido ao olhar direcionado tanto às mulheres quanto aos animais e a natureza. Publicado originalmente no Modefica, na série “Ecofeminismo: Mulheres e Natureza”, em 14/10/2016 [1] Pela importância que a conexão conceitual apresenta para a filosofia ecofeminista, ela será tratada especificamente no próximo texto da série. [2] Essas são as interconexões identificadas pela filósofa Karen J. Warren, no livro Ecofeminist Philosophy. Uma análise do alcance e dos limites da obra de Warren pode ser encontrada em ROSENDO, Daniela. Sensível ao cuidado: Uma perspectiva ética ecofeminista. Curitiba: Prismas, 2015.

Happy free woman dancing in raps field at golden hour
Autocuidado

Corpo são, mente sã

Dia desses, passei algumas horas me conectando comigo mesma, com meu corpo – tão negligenciado nos últimos anos – numa oficina de danças afro. Recentemente, percebi que tratei meu corpo como mero meio (para o trabalho mental), ao invés de dispensar um tratamento digno que o considerasse um fim em si mesmo. No entanto, dessa constatação não decorreu imediatamente um movimento de superação desse limite. Cada vez que uma médica ou uma terapeuta me recomendava fortemente fazer atividade física (sob a pena de meu corpo me impor limites e me fazer parar e olhar para ele, da pior maneira possível), eu imediatamente criava barreiras e pensava como seria difícil transpor minha absoluta falta de vontade para ir à academia ou, se eu não estivesse interessada nesse ambiente fechado (como nunca estive), simplesmente sair para caminhar como parte da minha rotina diária. Tentei fazer alguns movimentos em direção a essa superação. Por três anos consecutivos, consegui fazer pilates com uma profissional que me acolheu e entendeu os meus limites. Apesar de as aulas terem sido muito prejudicadas, em alguns períodos, pela minha rotina de viagens a trabalho e estudo, tive uma professora que sempre manteve o seu compromisso em me ajudar e possibilitar que eu saísse da aula melhor do que eu havia entrado. Eu chegava sempre com tantas dores na lombar e na cervical que, em todos esses anos, eu mal consegui sair do alongamento e trabalhar força. Não tenho dúvida que essa prática foi crucial para que eu não tivesse literalmente travado nestes últimos anos, mas ainda me faltava fôlego. Lembro bem de um episódio que aconteceu em janeiro de 2015. Eu estava de férias e, numa passagem por Porto Alegre, fui ao cinema assistir Brincante – o Filme, que – de forma lírica – conta a história do artista pernambucano Antônio Nóbrega. Aos meus olhos, biografia, resistência e a lindeza da cultura popular se fundiam em perfeita harmonia. Em algum momento do filme, desatei a chorar e a me perguntar: “o quê que eu tô fazendo com meu corpo?” Tonheta, o personagem, perguntava: “Estás com goteira no pulmão ou engarrafamento nas artérias? Estás com ferrugem nas juntas ou soltura nos intestinos?” Apesar de ter sido muito tocada – senti uma vontade imensa de sair da sala de cinema pulando e brincando – fui incapaz de mobilizar esse desejo e transformá-lo em ação. Muitas e muitas vezes eu me perguntei sobre os motivos desse descompasso. Na escola, eu sofria com as aulas de educação física e tinha vontade de sumir quando saíamos da sala para ir à quadra. No mata-soldado, era o meu medo de ser acertada pela bola que fazia com que, de vez em quando, eu fosse uma das últimas a ser o alvo – para aumento da minha tortura. Eu costumava associar o medo de ser machucada pela bola ao fato de não ser boa nos esportes coletivos, à dificuldade para lidar com a competitividade, à timidez e à vergonha. Recentemente, assistindo esse vídeo de Louie Ponto, percebi que talvez o que eu considerasse ser timidez e vergonha era também ansiedade, mas esse já é outro assunto. Além disso, desde a pré-adolescência, quando comecei a andar um pouco mais sozinha pela cidade, a pé ou de ônibus, eu me sentia ultrajada com qualquer tipo de assédio. Era um misto de repulsa e medo daqueles homens que mexiam com um menina na rua, que anos depois – já feminista – fui compreender como uma forma de violência. Acredito que essa combinação do assédio com a preguiça que me acompanhou durante a adolescência marcaram, ao menos em parte, a minha forma de estar no mundo até hoje. Mas, apesar da falta de aptidão para os esportes e da preguiça juvenil, tinha algo que eu amava: dançar. Aos 7 anos, comecei a fazer jazz. No início, eram duas vezes por semana. Uns três anos mais tarde, fui promovida à turma das meninas mais velhas e passei a ir três vezes por semana. Eu gostava tanto, mas tanto, de dançar que houve épocas em que eu não andava: eu me deslocava dançando. Eu acompanhava minha mãe na fila dançando; eu saía da mesa do almoço e ficava fazendo espacate na cozinha. Eu tinha uma flexibilidade incrível! Uma vez, minha prima ficou tão irritada comigo que me mandou parar de dançar. Não lembro se estávamos num estacionamento de mercado ou num shopping. Fiquei meio chocada e bastante constrangida com a reação dela (minha prima era minha ídola), acho que fiquei um pouco quieta em seguida, mas não me abalei por muito tempo. Depois de 5 anos de jazz, aos 12 anos eu parei abruptamente de fazer atividade física. Apesar do amor pela dança, eu me vi limitada onde estava e, sem ver a possibilidade de seguir por outro caminho, desisti. Na cidade onde nasci e fui criada, Joinville, acontece o maior festival de dança da América Latina. O lugar onde eu fazia jazz era uma sociedade recreativa de uma grande empresa da cidade, perto de onde eu morava, e, portanto, ficávamos no campo do amadorismo. Em julho, quando acontecia o festival, chegávamos a nos apresentar em alguns palcos livres – em shoppings, praças e empresas -, mas nunca competimos, nem chegaríamos a fazê-lo. Desconfio que meu sonho não era necessariamente competir, mas ser uma dançarina melhor e mais reconhecida. Eu queria ser boa na dança; não necessariamente a melhor. Tinha algo de superação individual… quando cheguei num limite intransponível para mim naquele momento, desisti. A única saída que eu vislumbrava era mudar para uma escola de dança melhor, mas isso significava uma mensalidade bem mais cara – que naquele momento minha família não poderia suportar. Nessa época, além da escola privada, eu já fazia um curso de inglês em uma boa escola. Eu já era bastante privilegiada, apesar de levar muitos anos para reconhecer isso depois. Contudo, passei duas décadas sofrendo com a ausência da dança no meu dia-a-dia. Levei todo esse tempo também para ir novamente assistir uma apresentação