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Refundar o pacto

Chegamos hoje ao útimo dia da Campanha 21 Dias de Ativismo pelo Fim do Racismo e da Violência Contra Mulheres, no Dia Internacional dos Direitos Humanos.

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Da violência ao cuidado

Em 1999, a Assembleia Geral das Nações Unidas designou oficialmente o dia 25 de novembro como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, em homenagem às irmãs Mirabal, conhecidas como “Las Mariposas” (As Borboletas).

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A nós, cara gente branca

A Campanha 16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência Contra Mulheres é uma iniciativa global que visa sensibilizar e mobilizar indivíduos e comunidades para tomarem medidas contra a violência baseada no gênero. No Brasil, nos últimos anos, a campanha ganhou alguns dias a mais, iniciando no Dia da Consciência Negra,

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Vegan balance vegetables

Vegan Washing

O que há para se comemorar com a possibilidade de israelenses optarem por alimentação vegana, botas e boinas sintéticas ao servirem o exército? Muito pouco, eu diria. É preciso ampliar o olhar para além dessa possibilidade de escolha para quem cumpre o serviço militar e ver em qual contexto essa questão se insere. Isso quer dizer que não devemos comemorar “pequenas vitórias”? Não, afinal sabemos que a exploração dos animais não acabará de um dia para o outro e que mudanças estruturais podem levar um bom tempo. A questão sobre a qual quero chamar a atenção aqui é em relação ao uso dos direitos animais com outras intenções que não, de fato, promovê-los. Em Israel, homens são obrigados a servir por 3 anos e mulheres por 2. Passado esse tempo, homens ainda precisam cumprir de 30 a 60 dias a cada ano, até completarem 40 anos de idade. Para a maioria dos/das jovens isso é algo plenamente normal, pois desde a infância vivem em uma sociedade altamente militarizada. Na escola, aprendem a contar com bandeiras, aviões, tanques e outros símbolos que visam institucionalizar a conexão entre a militarização e a paz. Ao contrário do que orienta o Direito Internacional, há permissão para civis portarem armas e, portanto, as crianças crescem acostumadas com elas ao ponto de chegarem aos 18 anos e andarem tranquilamente portando fuzis nos ombros. No entanto, alguns/mas jovens se recusam a servir e, no exercício democrático de objeção de consciência, cumprem a pena de prisão para não compactuarem com algo com que não concordam. A discordância pode ser de origem religiosa (judeus ultra-ortodoxos são isentos do serviço militar), ou por não concordarem com a própria militarização da sociedade e, especialmente, serem contra a ocupação da Palestina. Desde 1967 Israel mantém o território palestino não só ocupado, mas colonizado. Cada vez mais colônias têm sido construídas e habitadas por colonos/as israelenses em terras palestinas. Além de, novamente, contrariar o Direito Internacional a ocupação traz consequências avassaladoras para o povo palestino, como o apartheid. Israel controla todo o território, logo tem domínio sobre a água e a energia elétrica também. Enquanto casas palestinas estão sujeitas à falta de ambos, nas colônias nunca falta esse tipo de suprimento. Além disso, nem todas as estradas e checkpoints podem ser utilizadas por palestinos/as. Algumas são exclusivas para colonos/as. Em última instância, Israel controla a vida e a morte de cada palestino/a, em uma relação altamente assimétrica; basta lembrar que o porte de arma é ilegal para quem vive na Cisjordânia e muitos protestos são pacíficos, sem quaisquer tipos de armas, nem mesmo pedras. Contudo, algumas estratégias são utilizadas pelo Estado de Israel para que o mundo não veja o genocídio praticado contra o povo palestino. Uma delas é o pink-washing, ou seja, o uso de direitos LGBTQIA+ para dar a impressão ao mundo de que um país que respeita a diversidade não poderia estar engajado em uma limpeza étnica. Outra tática, semelhante, é o vegan-washing: o uso do discurso dos direitos animais sem, de fato, se preocupar com a prática, com a intenção, tão somente, em apresentar uma imagem amigável (vegan friendly). Nesse contexto, quando o exército israelense oferece refeições veganas e vestuário sintético, ele está fazendo vegan-washing. Um exemplo que nos mostra que os animais estão sendo usados para esse fim é o uso de cães vindos da Holanda e treinados para atacar palestinos e árabes, distinguidos pelas suas roupas e linguagem. Os cães são utilizados como um meio de consolidar a ocupação militar israelense na Palestina, ferindo e matando pessoas. Não há nada de vegano nisso. Se o veganismo está comprometido com o fim da exploração animal, não deve ser conivente com a opressão humana. E o que nós podemos fazer de longe, além de não bater palmas para o vegan-washing? Uma das possibilidades é apoiar o BDS (Calls for Boycott, Divestment and Sanctions against Israel), movimento de boicote, desinvestimentos e sanções, contra o Estado de Israel. O boicote foi utilizado para pressionar o fim da segregação racial na África do Sul e agora tem sido utilizado pelo fim do apartheid na Palestina. Uma primeira ação poderia ser conhecer o trabalho da Palestinian Animal League, uma organização que atua no território palestino em prol da libertação animal e humana. Desta forma, é possível apoiar as ações protagonizadas pelo próprio povo palestino, conhecer as diferentes maneiras pelas quais a opressão é perpetuada e a maneira pela qual podemos, por meio de práticas individuais e coletivas, boicotá-la. Publicado na coluna Último Crime, da sobinfluencia edições, em 19 de setembro de 2021https://www.sobinfluencia.com/post/vegan-washing

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woman yoga beach

Entre Oriente e Ocidente, sou latina

Parece uma obviedade afirmar que quem nasce no Brasil é brasileiro/a. Nem tão óbvio é dizer que quem nasce no Brasil também é latino/a. Essa identidade regional não é tão nítida assim para muitas pessoas. Ao contrário, eu arriscaria dizer que brasileiros/as são, em geral, apartados de sua região. Será que faz diferença se reconhecer latina? A partir daqui, continuarei escrevendo no feminino – como subversão da norma que universaliza o masculino – para me referir a todos os gêneros. Quando fui à escola, o ensino ainda era dividido em primário e ginásio. Nesse importante marco para mim (e possivelmente para tantas outras meninas) – que era praticamente um divisor escolar entre infância e adolescência -, a quarta série (o último ano do primário) representava uma transição para a nova forma de organização do tempo e espaço na escola. Foi nesse ano que minhas manhãs passaram a ser divididas em matérias lecionadas tanto em salas de aula quanto por professoras diferentes (até aqui, todas professoras mulheres… foi só na quinta série que passei a ter meu primeiro professor homem, não surpreendentemente em uma disciplina de ciências exatas – matemática). Assim, foi no final do terceiro ano, ao fazer a matrícula para o quarto, que me deparei com uma das minhas primeiras escolhas escolares (em retrospectiva, sou extremamente grata a minha mãe e meu pai que me deram autonomia para fazer essa escolha, mas esse é um papo – da autonomia progressiva de crianças e adolescentes – para outro dia). Dentre as matérias que eu teria no ano seguinte, havia também o ensino de língua estrangeira e me foram ofertadas 3 opções: inglês, alemão ou espanhol. Levantei algumas considerações sobre cada idioma e fui resolutiva na minha decisão: espanhol. Lembro bem de um dos motivos que pesaram na minha escolha: a criação do Mercosul. Aos 10 anos, eu não entendia os aspectos políticos que uma integração econômica representava. Hoje, acredito que fui mobilizada pelo desejo de eu mesma me integrar a minha região, por meio do idioma. Eu queria aprender a me comunicar com essas pessoas que, apesar de falarem outra língua, teriam outros aspectos em comum comigo. Eu não tinha ideia do que seriam esses possíveis interesses a serem compartilhados, mas havia um desejo de troca e um esboço de colaboração em prol de algo a ser feito conjuntamente. Quase 15 anos depois de começar a estudar esse idioma que tanto me encantou, veio outro marco na construção da minha identidade latina: passei a integrar uma rede feminista latinoamericana e caribenha de defesa dos direitos das mulheres, o CLADEM. Foi a partir dessa época que passei também a “sair a caminhar pela cintura cósmica do sul”, inspirada por cantoras que me tocavam de um jeito especial… era (e continua sendo) algo como acender uma chama no peito. Aliás, essas caminhadas são sempre acompanhadas pelas músicas que cantam nossas dores e nos acolhem, possibilitando transmutar o sofrimento em resistência e luta. Minha última andança pela região foi em novembro passado, para o extremo sul da Argentina. Voltando do fim do mundo, fiz uma passagem rápida por Buenos Aires e depois de algumas horas visitando o MALBA – o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, fui dar uma olhada nos filmes que estavam em cartaz por lá. Para minha sorte, um deles era Que sea ley, um documentário que mostra a luta do movimento feminista na Argentina para legalizar o aborto no país. Em junho de 2018, o projeto que legalizava o aborto até a 14ª semana de gestação foi aprovado na Câmara dos Deputados. O Senado, contudo, o rejeitou. As mulheres argentinas continuam sendo criminalizadas, assim como quase todas nós que vivemos na região. Em alguns países – El Salvador, Honduras, Haiti, Nicarágua, República Dominicana e Suriname – a interrupção voluntária da gravidez é completamente proibida. Se a vida de uma mulher estiver em risco, a gestação – ainda que muito recente – é privilegiada sem considerar que o embrião depende dessa vida para poder se desenvolver. Nesses contextos, até mesmo mulheres que sofrem abortos espontâneos são, por vezes, criminalizadas. Na região, a maioria dos países permitem a interrupção voluntária somente para salvar a vida da mulher. Alguns permitem também em casos de gravidez resultante de estupro – como Brasil, Panamá e Chile – e anomalias fetais graves. Uruguai, Cuba e Guiana são as exceções, onde se permite a interrupção até a décima ou décima segunda semana de gestação. Dessa forma, a legalização do aborto ainda é uma dívida dos países latino americanos com os direitos humanos das mulheres. Que sea ley nos fazer reviver toda a tristeza que sentimos (nós, feministas e progressistas) quando o projeto de lei argentino não foi aprovado. Ali, é possível sentir o que Vilma Piedade comunica ao afirmar que não é pela soridade que as mulheres se irmanam, mas pela dororidade. Quase todas as pessoas que assistiam a sessão eram mulheres. Quando o filme terminou, estávamos todas chorando, trocando olhares e gestos de acolhimento. Aquele choro que é fruto da dor. A dor do mundo. É uma dor coletiva, não individualizada. Levei alguns minutos para conseguir me recompor e reunir forças para levantar. Saindo da sala de cinema, ainda havia outra mulher, sentada na última fileira. Ela ainda chorava muito. Fui em direção à saída mas, sentindo a dor dela, voltei. Parei diante dela, que ergueu a cabeça com os olhos inchados, tanto quanto os meus. Estendi os braços e ficamos ali, abraçadas, chorando e buscando respirar fundo, enquanto saíam algumas palavras do quanto isso nos doía e era injusto. Por fim, nos olhamos profundamente nos olhos uma da outra e eu lhe disse: que sea ley. Será lei. Na Argentina, Alberto Fernández – o novo presidente – venceu as eleições com o compromisso de assumir a pauta da descriminalização do aborto. Ainda não sabemos quando isso irá ocorrer, mas não descansaremos enquanto todas as mulheres – não só as que podem pagar por um procedimento seguro – tenham plenos direitos reprodutivos. Mas

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Nós, as Vulneráveis: a Dimensão Ética-política do Cuidado de Nós Mesmas

Em novembro de 2018, participei do I Colóquio Internacional de Educação em Direitos Humanos, que celebrava os 15 anos do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH). Na época, eu estava na coordenação do IDDH, uma organização brasileira pioneira na atuação junto a política de EDH no país e na região latinoamericana. Ocupávamos, inclusive, uma cadeira do finado Conselho Nacional de Educação em Direitos Humanos, representando a sociedade civil. Uma das mesas que integrei no colóquio era composta por figuras de peso na defesa dos direitos humanos no Brasil, daquelas históricas mesmo, que vêm nessa militância desde antes de eu nascer. E lá estava eu, diante de um auditório na Universidade de Brasília, ao lado de Lurdinha Nunes e Moacir Gadotti. Em geral, nessa época eu já havia me habituado bem a dar aulas, proferir palestras e falar publicamente sem ficar extremamente nervosa como acontecia anteriormente. Mas naquele 27 de novembro, às vésperas dos meus 34 anos, eu tremia, por dentro e por fora, as mãos suavam, a respiração era curta e o peito ardia. E eu me perguntava: “o que está acontecendo? Por que isso?” Tentando – em vão – me acalmar, eu pensava “não fico mais nervosa para falar”. Diante daquela dificuldade tremenda de conseguir raciocinar de forma nítida e conseguir traduzir isso numa boa fala, comecei a me perguntar o que fazer diante dessa situação. Eu não tinha dúvida de que seria incapaz de disfarçar o nervosismo, então resolvi escancará-lo. Recebendo a palavra, cumprimentei as pessoas e contei o que eu estava sentindo. Foi aí que Gadotti pegou novamente o microfone e, num amoroso gesto de acolhimento, contou que Paulo Freire sempre ficava nervoso antes de alguma apresentação. Freire sabia da responsabilidade que tinha diante das pessoas a quem iria se dirigir. Ouvindo esse relato de um educador sensível, respirei e a vulnerabilidade que me fragilizava se tornou justamente a minha força. Esse episódio foi mais um daqueles que me ajudou a elaborar essa questão complexa da vulnerabilidade. Quase um ano depois, eu estava em um quadro grave de transtorno de ansiedade e depressão, que me tirava completamente a vontade de viver. No processo terapêutico, consegui perceber que meu corpo já vinha me dando sinais há um bom tempo de que eu estava adoecida mentalmente. Por isso, uma habilidade que eu já havia desenvolvido – a de me comunicar publicamente – estava prejudicada naquele meu novo contexto. Vários fatores me levaram a receber esse diagnóstico e me impuseram a necessidade do autocuidado. Passei uma década conjugando os desafios do trabalho remunerado (em vários períodos trabalhando em duas ou três instituições ao mesmo tempo) com as tarefas de cuidado (é puxado dar conta da vida, não é? Trabalho doméstico não acaba nunca), minha formação como pesquisadora (o que inclui muita produção intelectual não remunerada) e a militância. Participar ativamente dos movimentos sociais é ao mesmo tempo algo fundamental na minha constituição individual mas, na minha entrega para a construção coletiva, muitas vezes me negligenciei. O desequilíbrio prolongado desse modo de vida acabou se tornando insustentável. Curiosamente, em 2019 eu estava concluindo o doutoramento em Filosofia e uma das questões teóricas que refletem na práxis ecofeminista que desenvolvo no âmbito de um projeto ético-político, fundamentado em uma ética sensível ao cuidado, é justamente a vulnerabilidade. Com filósofas feministas, em especial as eticistas do cuidado, aprendi que a vulnerabilidade é comumente associada a aspectos negativos, relacionados a danos, fragilidades e fraquezas. Muitas vezes, essa visão contribui para a construção de um paradigma de invulnerabilidade, ou seja, que simplesmente ignora uma característica da qual não podemos fugir. A vulnerabilidade está relacionada à capacidade de sofrer danos, sejam eles físicos, emocionais, psicológicos ou sociopolíticos. Ainda que eles possam ser minimizados, é impossível erradicá-los completamente. Por isso, a vulnerabilidade é uma característica geral e abrangente dos indivíduos, condicionando a vida de diversas maneiras. No entanto, ela não é sinônimo de fragilidade, fraqueza ou incapacidade. Ainda que seja em decorrência dessa condição, a vida não é afetada apenas de maneira negativa. É também em razão da vulnerabilidade que somos afetadas positivamente. São os cuidados que recebemos, desde o nascimento, que permitem o nosso crescimento. A questão é que a necessidade de cuidado não cessa nunca de forma absoluta, mesmo quando alcançamos a vida adulta. Ao longo da vida inteira, estamos numa condição de vulnerabilidade e co-dependência dadas por um conjunto de necessidades e capacidades físicas, cognitivas e sociais supridas por uma dimensão relacional. Ressignificar a vulnerabilidade nesses termos derruba também a noção de autossuficiência dos sujeitos. Junto ao paradigma da invulnerabilidade, está também o ideal da autonomia pensada como independência. Logo, assim como a vulnerabilidade é vista como negativa, a dependência também o é. O problema é que essa prática – e essa pretensa postura independente – gera privilégios para uns em detrimento de desvantagens para outros (ou, mais especificamente, outras) que precisam assumir as atividades do cuidado. Isso acarreta, consequentemente, em políticas desiguais de distribuição de cuidado no tecido social. A vulnerabilidade é experimentada de forma específica por cada indivíduo, dadas as circunstâncias que lhes são próprias, marcadas por relações pessoais, econômicas e institucionais. Como Ilze Zirbel explicou em sua tese de doutorado em Filosofia, o fechamento ético e epistêmico da postura de invulnerabilidade do sujeito acarreta não só uma forma de ignorar a dependência, mas também manter relações sociais opressoras e injustas. Por outro lado, o modelo de autonomia relacional ajuda a compreender o exercício da autonomia pelos indivíduos em diferentes contextos e condições marcados pela dependência. Trazendo essas ferramentas teóricas para a experiência do adoecimento mental, para além da obviedade de ser uma questão bastante complexa, quero chamar atenção para o fato de não ser apenas uma questão individual. Estamos diante de uma questão social e, portanto, também política. Desassociar transtornos mentais da noção de fraqueza, impotência, fragilidade, falta de vontade e afins, é não só incorreto, mas eu diria também injusto. Da perspectiva individual, há potência em se reconhecer vulnerável e co-dependente. Outras virtudes, como resiliência e coragem,

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